61 milhões de brasileiros vivem sob regras de facções. O Estado não controla seu próprio território. PCC e CV deveriam ser tratados como o que são: uma ameaça à segurança nacional. Entenda.

Saia de casa. Ande algumas quadras. As chances de que você passe em frente a um ponto de venda de drogas controlado por uma facção criminosa são altíssimas — não importa se você mora em São Paulo, no Acre, no Maranhão ou no Rio Grande do Sul. O Brasil de 2026 não é apenas um país com problema de segurança pública. É um narcopaís. E os dados oficiais provam isso com uma clareza que o governo faz questão de ignorar.
Segundo estudo da Universidade de Cambridge publicado em agosto de 2025 na revista Perspectives on Politics, entre 50,6 milhões e 61,6 milhões de brasileiros vivem em territórios onde as regras não são as do Estado — são as das facções criminosas. Isso representa entre 25% e 30% da população nacional. Um em cada quatro brasileiros acorda toda manhã num lugar onde quem manda não é o prefeito, não é o governador, não é a Constituição. É o PCC, o Comando Vermelho ou uma das outras 86 organizações criminosas mapeadas em todo o território nacional.
31 facções “poderosas” — e o governo sabia
Em novembro de 2025, a Agência Brasileira de Inteligência divulgou relatório revelando que o Brasil tem pelo menos 31 facções criminosas consideradas “poderosas”, com capacidade de atingir a segurança pública em nível estadual e nacional. Entre todas, três se destacam por sua escala: o Primeiro Comando da Capital, o Comando Vermelho e o Terceiro Comando Puro — organizações que deixaram de ser grupos de presídio e se transformaram em megacorporações transnacionais, com atuação na América do Sul inteira.
Segundo levantamento do Fórum Brasileiro de Segurança Pública divulgado pela CNN Brasil em dezembro de 2025, PCC e CV juntos têm hegemonia em 13 estados brasileiros. O PCC domina sete — Mato Grosso do Sul, Minas Gerais, Paraná, Rondônia, Roraima, São Paulo e Piauí. O CV domina seis — Acre, Amazonas, Mato Grosso, Pará, Rio de Janeiro e Tocantins. E nos estados restantes, as duas facções disputam território com grupos regionais — o que significa mais violência, não menos presença do crime organizado.
Na Amazônia Legal, a situação é ainda mais grave: 344 municípios — 44,6% da região — registram presença ativa de facções. Em 86 deles, duas ou mais organizações disputam o controle simultaneamente, gerando conflitos que matam mais do que muitas guerras declaradas.
Como o crime organizado virou empresa transnacional
O modus operandi das facções mudou. Segundo o mesmo levantamento do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, os roubos de rua estão se tornando obsoletos. A nova fronteira é o crime digital: fraudes no celular que se tornaram “uma engrenagem bilionária do crime organizado”, com taxa de impunidade de 97%. Noventa e sete por cento. Praticamente nenhum criminoso digital é punido.
Em fevereiro de 2025, PCC e Comando Vermelho firmaram uma trégua, segundo relatório da inteligência da Polícia Civil do Rio de Janeiro. O objetivo declarado era lavar dinheiro em conjunto, traficar drogas e adquirir armamento pesado de forma coordenada. A trégua foi rompida meses depois — não porque o Estado interferiu, mas porque os interesses regionais das duas organizações entraram em conflito. O Estado não teve nenhum papel na dissolução do acordo entre as duas maiores facções criminosas da América Latina.
Pesquisadores da Unesp ouvidos pelo Jornal da Unesp em junho de 2025 foram diretos: “O PCC e o CV não querem o poder do Estado. Querem uma relação de simbiose, parasitária, de exploração do Estado. As condições atuais já são positivas para eles.” Traduzindo: o crime organizado não quer destruir o Estado brasileiro. Quer que ele continue exatamente como está — fraco, lento, corrupto e previsível.
O Brasil perdendo a guerra que não admite estar travando
O Atlas da Violência 2025, publicado pelo Ipea em parceria com o Fórum Brasileiro de Segurança Pública, registra 45.747 homicídios no Brasil em 2023 — uma taxa de 21,2 por 100 mil habitantes. Para efeito de comparação, países em guerra declarada registram taxas menores.
O déficit de vagas nos presídios é de 202 mil lugares, segundo a Secretaria Nacional de Políticas Penais. Para zerar esse déficit seriam necessários R$ 14 bilhões em construção — valor próximo aos R$ 12 bilhões desviados no escândalo do Banco Master. O governo tem o número. Não tem a vontade política.
E enquanto isso, o presidente da República vai a Washington pedir a Trump que não classifique o PCC e o Comando Vermelho como organizações terroristas — o que dificultaria rastrear o dinheiro das facções no sistema financeiro internacional. O governo brasileiro foi à Casa Branca defender as duas maiores facções criminosas do país. Com dinheiro público. Com escolta presidencial. Com pauta oficial.
Isso não é descaso com a segurança pública. É política.
O Brasil não tem um problema de segurança pública. O Brasil é um narcopaís — e os dados são claros o suficiente para que ninguém possa dizer que não sabia.
Compartilha. Porque o primeiro passo para resolver um problema é parar de fingir que ele não existe.
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FONTES:
1. Gazeta do Povo — Até 61 milhões de brasileiros vivem sob domínio de facções (fev/2026)
2. Abracrim — E o vácuo do poder aumentou: facções e crime organizado no Brasil (nov/2025)
3. CNN Brasil — CV e PCC têm hegemonia em 13 estados (dez/2025)
4. Brasil Paralelo — Mapa das facções: 88 organizações criminosas no Brasil (nov/2025)
5. Jornal da Unesp — O PCC e o CV não querem um narco-estado (jun/2025)
6. Ipea — Atlas da Violência 2025
7. Agência Brasil — Zerar déficit de 202 mil vagas em presídios custaria R$ 14 bilhões (nov/2025)
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